quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

11 anos da classificação no Palestra Itália.




Sandro Mineiro, Fuscão, Fernando e Kiko -
ASA Gigante, como sempre

          Há um sério equívoco de análise quando se fala que o ASA era um time sem expressão quando obteve a classificação no Palestra Itália na Copa do Brasil de 2002. Aquela classificação foi um processo natural de um time que passou a ser vencedor, a ganhar campeonatos em uma história recente, mas que sempre foi gigante e tradicional. De incomum na classificação somente a estranha data 20.02.2002.

O ASA tinha sido campeão alagoano no século passado (1953), bicampeão alagoano (2000-2001) e naquela ocasião já havia disputado as três séries nacionais (série A em 1979, série B nos anos 80 e série C nos anos 90). Havíamos, com o bicampeonato alagoano, ultrapassado o único estigma que tínhamos a quebrar, o de ser um time perdedor, um time em jejum que não alcançava conquistas. Passamos a ser um time vencedor e de quebra tivemos uma renovação da torcida. Mas o gigante sempre existiu com a força de uma torcida que sempre lotou estádios ansiosa por títulos. Não se tratava simplesmente de um Davi que derrotou Golias. Mas sim de um clube tradicional do Nordeste que venceu o Palmeiras. Por que não?

Nesse sentido, concordo com o nosso presidente na época, Luciano Machado, que afirmou recentemente que a nossa torcida estava envelhecendo e com os dois títulos de 2000 e 2001 ela se renovou. E este vácuo na torcida faz com que muitos analisem de forma rasteira essa classificação na Copa do Brasil de 2002. Muita gente nova passou a torcer pelo clube com as conquistas de 2000/2001, geração da Internet que não acompanhou o clube anteriormente e opina como se esse passado não existisse, contribuindo para essa visão distorcida que a classificação contra o Palmeiras teria sido sorte. Assim, a classificação na Copa do Brasil de 2002, é tratada até por parte da nossa torcida como se fosse fruto do acaso, alimentando o folclore em cima da questão.

Analisando os fatos, o dia a dia do clube na época, a história não é essa. O ASA no final de 2001 fez uma campanha de reação na Série C com cinco vitórias consecutivas em cima do Central, Confiança, Corinthians Alagoano, CSA e Itabaiana. Não obtivemos a classificação porque o time começou mal na competição. Fechada a série C, o clube se manteve treinando e fez amistosos até o final do ano de 2001.

Iniciado o ano de 2002, o clube não pôde manter o mesmo treinador (Laelson Lopes que tinha um histórico de trabalhar e lançar bons jogadores das categorias de base) que recebeu proposta para dirigir as categorias de base do Bahia (que anos depois seria campeã da Taça São Paulo sub-18 com o Laelson Lopes), mas manteve a boa base de atletas como Sandro Minieiro, Cleber Carioca, Fuscão, Jânio etc e contratou o técnico Chiquinho de Assis, também baiano e promissor. Chiquinho de Assis fez a pré-temporada, mas não quis continuar o trabalho, talvez porque não estava ainda com preparo para ser técnico de um clube de força, com torcida que exigia resultados em busca de um tricampeonato alagoano.

O clube também tinha a expectativa de disputar o Campeonato do Nordeste de 2002 (por ser o então atual campeão do estado) e buscou as vias judiciais para essa finalidade, travando uma batalha jurídica contra a poderosa liga de clubes formada por Sport, Náutico, Bahia, Vitória etc., visto que tinha sido injustamente alijado da competição (até então o critério técnico para a disputa era ser campeão ou vice estadual e não ser membro de uma liga). Campeonato do Nordeste de 2002 que distribuiu cotas milionárias (transmissão da então poderosa Directv e patrocínio da TIM), valores muito maiores do que as cotas atuais (estima-se que cada clube recebeu um milhão de reais e a liga penou para derrubar apenas em Brasília, em um sábado que iniciaria o campeonato, as decisões judiciais que determinavam a inclusão do ASA por méritos na competição). O ASA vislumbrava também receber essa verba do campeonato do Nordeste e investiu  pesado para montar um bom time para entrar bem nessa competição (o que acabou não acontecendo) e também para ser tricampeão estadual.

Além de um histórico de participação em todas as divisões nacionais, três títulos estaduais, torcida apaixonada com médias de público maiores do que as de hoje, manutenção de uma base vencedora, investimento pesado para montar um bom time, o Gigante ASA encontrou um excelente técnico para substituir Chiquinho de Assis. Faltando 15 (quinze) dias para a Copa do Brasil e estréia no campeonato alagoano (e possibilidade de estréia no Campeonato do Nordeste por via de liminar), foi contratado o paulista Ubirajara Veiga para substituir o técnico Chiquinho de Assis. Com Ubirajara Veiga vieram boas indicações como o goleiro Márcio Pintinho.

E o “Bira” surpreendeu a todos com um esquema inédito no nosso clube e muito pouco utilizado até então no Brasil: o 3-5-2. Sim, mas para quem não sabe, no início de 2002 o esquema tático 3-5-2 era quase uma aberração (esquema esse que ainda em 2002 consagrou o Felipão na Copa do Mundo). Se não era uma inovação tática, até porque já era utilizado na Europa, era um esquema pouco comum no Brasil. E assustou muita gente. Lembro que os locutores das rádios e televisões paulistas elogiavam o esquema, antes, é claro, de soltar alguma piada folclórica a respeito do time, do tipo “se a Seleção de Felipão usa esse esquema, por que o ASA de Arapiraca não pode usar?”.

Além do esquema tático diferente para os padrões do futebol brasileiro na época e do Márcio Pintinho como goleiro, nosso time era muito bom e muito bem montado. Nas alas jogávamos com Sandro Mineiro, que sabia cruzar com perfeição, e Ivan, atleta muito técnico que fez o que quis em cima do veterano e cansado Arce; os três zagueiros eram Kiko, Rogério e Cléber Carioca (todos altos que inviabilizavam qualquer jogada de bolas alçadas na área do time adversário), sendo que este último ainda novo fez carreira depois em diversos times do Norte/Nordeste; no meio os fortes e bons volantes Jânio (remanescente do bicampeonato) e Fernando (era muito bom volante, por onde andará?) completavam a parede defensiva; na meia, o rápido e habilidoso Juninho, que depois foi pro Fortaleza e no clube cearense conquistou acesso para a série A como destaque, passando a ser chamado de Juninho “Cearense” (Juninho fez a linda jogada passando pela defesa do Palmeiras e que terminou no gol da classificação de Sandro Goiano); na frente um inspirado Sandro Goiano e a velocidade do Fuscão (artilheiro do time no bicampeonato de 2001 e jogador das categorias de base).

E do outro lado tinha um Palmeiras horroroso montado pelo Wanderley Luxemburgo e que acabou sendo rebaixado no final do ano formado por Arce em fim de carreira, uma zaga triste (Alexandre e César), um meio campo muito ruim (Galeano, Fernando, Magrão e Lopes, esse último um dos piores meias que já vi e que só jogou na partida de Arapiraca). Completando o time, o pior atacante que vi pisar no Coaracy da Mata Fonseca chamado Cristian. O que tinha de qualidade nesse Palmeiras era somente o goleiro Marcos (o único lúcido que deu várias entrevistas elogiando o time do ASA e reconhecendo os nossos méritos, sem tratar a vitória como folclore e que no mesmo ano seria campeão do mundo titular com a Seleção Brasileira na copa de 2002) e o então apagado meia Alex (que pipocou feio em Arapiraca, pedindo para sair da partida com 15 minutos do primeiro tempo e que depois ficou fora da Copa do Mundo). Enfim, um time inferior tecnicamente e taticamente ao nosso ASA, mas que ninguém, até hoje, parou para analisar.

A classificação em cima do Palmeiras, portanto, foi um processo natural entre uma disputa de dois times, sendo um time que tinha fama e fortuna, mas não tinha qualidade. E o outro era mais qualificado, gigante agora vencedor e que estava com sangue no olho.

No decorrer daquela Copa do Brasil, caímos diante de uma farta exposição na mídia dos atletas nos jornais, rádios, revistas e canais de televisão. De repente, passamos a ter uma equipe nacional de esportes da Rede Globo acompanhando o time diariamente. E a promessa era de que a equipe ficaria em Arapiraca até o time ser desclassificado com reportagens diárias (e ficou mesmo). Um excesso de exposição que trouxe para o nosso lado um deslumbre para os atletas e para o clube que até então estava nos outros. Então, víamos na televisão garotas chorando pelos jogadores nos treinos, cartas apaixonadas, matérias de todo tipo que nos tiraram o foco. Difícil não haver um descontrole. Ainda assim, vencemos o Confiança por 2 a 1 em Arapiraca e perdemos em Aracaju após seguramos o zero a zero até os 25 minutos do segundo tempo. Levamos o gol que nos tirava a classificação, tivemos que sair pro jogo, ficamos expostos e tomamos mais três gols em contra-ataque. Futebol é isso.

E toda essa exposição dos atletas, que passaram a ser estrelas sondadas com grandes propostas por outros times (Juninho, Cleber Carioca, Sandro Goiano etc), comprometeu também na disputa do estadual, que acabamos deixando de lado e sucumbimos no primeiro turno com resultados medíocres e, quando fomos correr atrás no segundo turno, também sucumbimos diante dos times que voltaram reforçados com a milionária cota do Campeonato do Nordeste. Não conseguimos o tricampeonato, que era realmente o que interessava naquele ano.

Mas ficou apenas a imagem errada, sem análise, de que éramos uma zebra, um time folclore, um time sem expressão quando não era nada disso. Sempre fomos uma força do futebol profissional nordestino, com tradição e com uma grande massa nas arquibancadas. Massa essa que proporcionou brigas internas no próprio clube por disputa de poder político na cidade. Massa essa que pressionava por títulos. Sempre tivemos um patrimônio, um clube social com sócios, conselheiros e diretoria organizada. Sempre fomos gigantes em médias de público e força financeira com diversos interesses políticos que se misturavam no clube, como todo grande clube. Faltavam os títulos que nos tornasse vencedores.

Os títulos vieram e a vitória contra o Palmeiras decorreu de todo um trabalho e não foi por acaso. E serviu para que o clube ainda mais amadurecesse, servindo de lição para que fossem evitados deslumbramentos dos atletas e do próprio clube nas conquistas seguintes.

                    Ivan passando fácil pelo cansado Arce

Imagens: UOL