Sandro Mineiro, Fuscão, Fernando e Kiko -
ASA Gigante, como sempre
ASA Gigante, como sempre
Há
um sério equívoco de análise quando se fala que o ASA era um time sem expressão
quando obteve a classificação no Palestra Itália na Copa do Brasil de 2002.
Aquela classificação foi um processo natural de um time que passou a ser
vencedor, a ganhar campeonatos em uma história recente, mas que sempre foi
gigante e tradicional. De incomum na classificação somente a estranha data
20.02.2002.
O ASA tinha sido campeão
alagoano no século passado (1953), bicampeão alagoano (2000-2001) e naquela
ocasião já havia disputado as três séries nacionais (série A em 1979, série B
nos anos 80 e série C nos anos 90). Havíamos, com o bicampeonato alagoano,
ultrapassado o único estigma que tínhamos a quebrar, o de ser um time perdedor,
um time em jejum que não alcançava conquistas. Passamos a ser um time vencedor
e de quebra tivemos uma renovação da torcida. Mas o gigante sempre existiu com
a força de uma torcida que sempre lotou estádios ansiosa por títulos. Não se
tratava simplesmente de um Davi que derrotou Golias. Mas sim de um clube
tradicional do Nordeste que venceu o Palmeiras. Por que não?
Nesse sentido, concordo
com o nosso presidente na época, Luciano Machado, que afirmou recentemente que
a nossa torcida estava envelhecendo e com os dois títulos de 2000 e 2001 ela se
renovou. E este vácuo na torcida faz com que muitos analisem de forma rasteira
essa classificação na Copa do Brasil de 2002. Muita gente nova passou a torcer
pelo clube com as conquistas de 2000/2001, geração da Internet que não
acompanhou o clube anteriormente e opina como se esse passado não existisse,
contribuindo para essa visão distorcida que a classificação contra o Palmeiras
teria sido sorte. Assim, a classificação na Copa do Brasil de 2002, é tratada
até por parte da nossa torcida como se fosse fruto do acaso, alimentando o
folclore em cima da questão.
Analisando os fatos, o
dia a dia do clube na época, a história não é essa. O ASA no final de 2001 fez
uma campanha de reação na Série C com cinco vitórias consecutivas em cima do
Central, Confiança, Corinthians Alagoano, CSA e Itabaiana. Não obtivemos a
classificação porque o time começou mal na competição. Fechada a série C, o
clube se manteve treinando e fez amistosos até o final do ano de 2001.
Iniciado o ano de 2002, o
clube não pôde manter o mesmo treinador (Laelson Lopes que tinha um histórico
de trabalhar e lançar bons jogadores das categorias de base) que recebeu
proposta para dirigir as categorias de base do Bahia (que anos depois seria
campeã da Taça São Paulo sub-18 com o Laelson Lopes), mas manteve a boa base de
atletas como Sandro Minieiro, Cleber Carioca, Fuscão, Jânio etc e contratou o
técnico Chiquinho de Assis, também baiano e promissor. Chiquinho de Assis fez a
pré-temporada, mas não quis continuar o trabalho, talvez porque não estava
ainda com preparo para ser técnico de um clube de força, com torcida que exigia
resultados em busca de um tricampeonato alagoano.
O clube também tinha a
expectativa de disputar o Campeonato do Nordeste de 2002 (por ser o então atual
campeão do estado) e buscou as vias judiciais para essa finalidade, travando
uma batalha jurídica contra a poderosa liga de clubes formada por Sport,
Náutico, Bahia, Vitória etc., visto que tinha sido injustamente alijado da competição
(até então o critério técnico para a disputa era ser campeão ou vice estadual e
não ser membro de uma liga). Campeonato do Nordeste de 2002 que distribuiu
cotas milionárias (transmissão da então poderosa Directv e patrocínio da TIM),
valores muito maiores do que as cotas atuais (estima-se que cada clube recebeu
um milhão de reais e a liga penou para derrubar apenas em Brasília, em um
sábado que iniciaria o campeonato, as decisões judiciais que determinavam a
inclusão do ASA por méritos na competição). O ASA vislumbrava também receber
essa verba do campeonato do Nordeste e investiu pesado para montar um bom time para entrar bem
nessa competição (o que acabou não acontecendo) e também para ser tricampeão
estadual.
Além de um histórico de
participação em todas as divisões nacionais, três títulos estaduais, torcida
apaixonada com médias de público maiores do que as de hoje, manutenção de uma
base vencedora, investimento pesado para montar um bom time, o Gigante ASA encontrou
um excelente técnico para substituir Chiquinho de Assis. Faltando 15 (quinze)
dias para a Copa do Brasil e estréia no campeonato alagoano (e possibilidade de
estréia no Campeonato do Nordeste por via de liminar), foi contratado o
paulista Ubirajara Veiga para substituir o técnico Chiquinho de Assis. Com
Ubirajara Veiga vieram boas indicações como o goleiro Márcio Pintinho.
E o “Bira” surpreendeu a
todos com um esquema inédito no nosso clube e muito pouco utilizado até então
no Brasil: o 3-5-2. Sim, mas para quem não sabe, no início de 2002 o esquema
tático 3-5-2 era quase uma aberração (esquema esse que ainda em 2002 consagrou
o Felipão na Copa do Mundo). Se não era uma inovação tática, até porque já era
utilizado na Europa, era um esquema pouco comum no Brasil. E assustou muita gente.
Lembro que os locutores das rádios e televisões paulistas elogiavam o esquema,
antes, é claro, de soltar alguma piada folclórica a respeito do time, do tipo “se
a Seleção de Felipão usa esse esquema, por que o ASA de Arapiraca não pode usar?”.
Além do esquema tático
diferente para os padrões do futebol brasileiro na época e do Márcio Pintinho
como goleiro, nosso time era muito bom e muito bem montado. Nas alas jogávamos
com Sandro Mineiro, que sabia cruzar com perfeição, e Ivan, atleta muito
técnico que fez o que quis em cima do veterano e cansado Arce; os três
zagueiros eram Kiko, Rogério e Cléber Carioca (todos altos que inviabilizavam
qualquer jogada de bolas alçadas na área do time adversário), sendo que este
último ainda novo fez carreira depois em diversos times do Norte/Nordeste; no
meio os fortes e bons volantes Jânio (remanescente do bicampeonato) e Fernando
(era muito bom volante, por onde andará?) completavam a parede defensiva; na
meia, o rápido e habilidoso Juninho, que depois foi pro Fortaleza e no clube
cearense conquistou acesso para a série A como destaque, passando a ser chamado
de Juninho “Cearense” (Juninho fez a linda jogada passando pela defesa do
Palmeiras e que terminou no gol da classificação de Sandro Goiano); na frente
um inspirado Sandro Goiano e a velocidade do Fuscão (artilheiro do time no
bicampeonato de 2001 e jogador das categorias de base).
E do outro lado tinha um
Palmeiras horroroso montado pelo Wanderley Luxemburgo e que acabou sendo
rebaixado no final do ano formado por Arce em fim de carreira, uma zaga triste
(Alexandre e César), um meio campo muito ruim (Galeano, Fernando, Magrão e
Lopes, esse último um dos piores meias que já vi e que só jogou na partida de
Arapiraca). Completando o time, o pior atacante que vi pisar no Coaracy da Mata
Fonseca chamado Cristian. O que tinha de qualidade nesse Palmeiras era somente
o goleiro Marcos (o único lúcido que deu várias entrevistas elogiando o time do
ASA e reconhecendo os nossos méritos, sem tratar a vitória como folclore e que
no mesmo ano seria campeão do mundo titular com a Seleção Brasileira na copa de
2002) e o então apagado meia Alex (que pipocou feio em Arapiraca, pedindo para
sair da partida com 15 minutos do primeiro tempo e que depois ficou fora da
Copa do Mundo). Enfim, um time inferior tecnicamente e taticamente ao nosso
ASA, mas que ninguém, até hoje, parou para analisar.
A classificação em cima
do Palmeiras, portanto, foi um processo natural entre uma disputa de dois times,
sendo um time que tinha fama e fortuna, mas não tinha qualidade. E o outro era
mais qualificado, gigante agora vencedor e que estava com sangue no olho.
No decorrer daquela Copa
do Brasil, caímos diante de uma farta exposição na mídia dos atletas nos
jornais, rádios, revistas e canais de televisão. De repente, passamos a ter uma
equipe nacional de esportes da Rede Globo acompanhando o time diariamente. E a
promessa era de que a equipe ficaria em Arapiraca até o time ser
desclassificado com reportagens diárias (e ficou mesmo). Um excesso de exposição
que trouxe para o nosso lado um deslumbre para os atletas e para o clube que
até então estava nos outros. Então, víamos na televisão garotas chorando pelos
jogadores nos treinos, cartas apaixonadas, matérias de todo tipo que nos
tiraram o foco. Difícil não haver um descontrole. Ainda assim, vencemos o
Confiança por 2 a 1 em Arapiraca e perdemos em Aracaju após seguramos o zero a
zero até os 25 minutos do segundo tempo. Levamos o gol que nos tirava a
classificação, tivemos que sair pro jogo, ficamos expostos e tomamos mais três
gols em contra-ataque. Futebol é isso.
E toda essa exposição dos
atletas, que passaram a ser estrelas sondadas com grandes propostas por outros
times (Juninho, Cleber Carioca, Sandro Goiano etc), comprometeu também na
disputa do estadual, que acabamos deixando de lado e sucumbimos no primeiro
turno com resultados medíocres e, quando fomos correr atrás no segundo turno, também
sucumbimos diante dos times que voltaram reforçados com a milionária cota do
Campeonato do Nordeste. Não conseguimos o tricampeonato, que era realmente o
que interessava naquele ano.
Mas ficou apenas a imagem
errada, sem análise, de que éramos uma zebra, um time folclore, um time sem
expressão quando não era nada disso. Sempre fomos uma força do futebol profissional
nordestino, com tradição e com uma grande massa nas arquibancadas. Massa essa que
proporcionou brigas internas no próprio clube por disputa de poder político na
cidade. Massa essa que pressionava por títulos. Sempre tivemos um patrimônio,
um clube social com sócios, conselheiros e diretoria organizada. Sempre fomos
gigantes em médias de público e força financeira com diversos interesses
políticos que se misturavam no clube, como todo grande clube. Faltavam os
títulos que nos tornasse vencedores.
Os títulos vieram e a
vitória contra o Palmeiras decorreu de todo um trabalho e não foi por acaso. E
serviu para que o clube ainda mais amadurecesse, servindo de lição para que
fossem evitados deslumbramentos dos atletas e do próprio clube nas conquistas
seguintes.
Ivan passando fácil pelo cansado Arce
Imagens: UOL
Imagens: UOL


Pode me informar o nome de Sandro Mineiro completo, data de nascimento e cidade. Ele teria passado pelo América potiguar.
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